terça-feira, 23 de agosto de 2011

[Coluna] A Palavra da Lagarta #3 - Idealizar ou não idealizar?


Uma das minhas maiores birras, e também uma de minhas maiores dificuldades como pseudo-escritora, é a tal da idealização. Chega até mesmo a ser contraditório criticá-la; porque, nos dias de hoje, quando se lê um livro – permita-me dizer aqui que me refiro à maioria. Não tenho a intenção de generalizar nada. – já espera-se quase que inconscientemente por um herói bonito, corajoso, de atitudes nobres ou, em outras palavras, perfeito. Aliás, é quase decepcionante quando o mocinho não atinge tais qualidade. E agora, a pergunta: essa idealização seria exagerada, necessária ou característica da obra escolhida?
Para ser bem sincera, a resposta é: não sei. Um dos maiores motivos, senão o maior, pelo qual eu gostei da série “Feios” foi por causa do contraste muito bem trabalhado entre David e Zane. Zane é literalmente perfeito, tanto na aparência deslumbrante, quanto nas suas idéias que são recheadas com a nobreza de seus atos. Já David é feio, tem vários defeitos e suas atitudes, não tão nobres assim. Gostei da abordagem entre os dois tipos de heróis no mesmo livro, quase que pedindo para que o leitor escolha seu lado. Agora, não é bem isso que acontece na maioria dos livros; eu poderia perder a tarde toda aqui apenas citando diversos deles em que absolutamente todos os seus personagens são abusivamente belos. É claro que em todos esses casos, o gênero literário justifica a idealização dos personagens, mas o assunto em pauta não é onde ela é encontrada, e sim, se o seu uso é necessário.
Veja bem, príncipes encantados não existem. Não existem pessoas fisicamente ou psicologicamente perfeitas, muito menos os dois juntos! Apenas o amor pode tornar uma pessoa perfeita, mas ainda assim apenas na visão daquele que a ama. Usar tal característica para todo o personagem de um livro o torna surreal, inalcançável. Tudo bem que há quem justifique que um livro não foi feito para ser real ou alcançável, há quem diga que de ruim já basta a realidade em que vivemos, e que lêem apenas para se desligarem dela. Concordo! Muitas vezes eu mesma leio com esse objetivo. Aliás, os personagens de meus livros – pelo menos boa parte deles – são, de fato, idealizados. É só que... Eu me senti tão próxima de David (Feios), ele me pareceu, de certa forma, tão real e atingível. Isso sem contar com Derfel(O Rei do Inverno) e sua aparência brutalizada pelas batalhas, seu jeito sujo e mal cuidado. Percebi que sinto falta dos livros que me trazem uma sensação mais humana, um ambiente mais palpável.

3 comentários:

  1. É exatamente isso, há livros que são idealistas que promovem o idealismo e há os livros realistas. Contudo, o que é real? Nós não somos aquilo que idealizamos também? Nós não criamos a nossa realidade? Então a identificação se dá por aí... O idealismo de cada um depende da sua própria realidade, ou a realidade de cada um depende daquilo que idealiza... A realidade é: somos produtos idealizados.

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  2. Entendo quem não quer idelizar seus personagens, para torná-los mais reais... mas muitas vezes isso vai para o outro extremo, e o personagem vira um esteriótipo de defeito ambulante.

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  3. Em minha singela opinião, a idealização do fictício, dos heróis principalmente, é algo humano. Isso pode ser visto de desde tempos remotos. Em quase todas as lendas e mitos o herói é uma figura idealizada e sem defeitos, dessa forma é mais do que normal ao imaginarmos um herói para nossas histórias criarmos um ser perfeito. Esse herói foi criado para servir de modelo para as sociedades e civilizações antigas, e serve de modelo até hoje, tanto que ao se pensar no príncipe encantado apenas os apaixonados não pensarão em um ser belo e idealizado. Os autores no geral tentam expressar sua própria visão de herói, por isso os personagens principais dos livros são normalmente idealizados de acordo com os gostos do autor, já que os livros são a unica forma de dar vida a seu próprio príncipe encantado.

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