segunda-feira, 2 de abril de 2012

[Coluna] A Palavra da Lagarta #8 - Distopia, pra que te quero!

As modas literárias sempre estiveram por ai, as vezes passam um tempo sem qualquer delas aparecer, mas volta e meia estão de volta, embora tenhamos a impressão de que ela é uma exclusividade do nosso tempo. Elas sempre vêm mostrando toda sua força, seja num gênero, como foi com os vampiros na época de Crepúsculo, ou uma série/livro específico, como em Harry Potter. E a moda da vez, trazida principalmente por Jogos Vorazes, são os livros distópicos. Distopia não é uma palavra nova. Ela foi usada pela primeira vez em um discurso ao Parlamento Britânico de Gregg Webber e John Stuart Mill, em 1868. Seu significado remete a uma utopia negativa, ao contrário;
"A maioria das distopias tem alguma conexão com o nosso mundo, mas frequentemente se refere a um futuro imaginado ou a um mundo paralelo no qual a distopia foi engendrada pela ação ou falta de ação humana, por um mau comportamento ou por ignorância." - Wikipédia
Peguei a definição na nossa querida enciclopédia livre, porque embora ela não seja tão confiável assim, esse conceito tem seu lado de verdade e está bem claro, então por isso dei preferência a ele.
Pra se ter uma noção como esse tipo de ambientação não é de hoje, antes dos anos 1950 o gênero já fazia sucesso com A Máquina do Tempo de H. G.Wells que é de 1895 e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley de 1932, pérolas da literatura mundial, cultuados até hoje. Tem também Animal Farm (No Brasil, Revolução do Bichos, que nao é exatamente uma distopia) e 1984 de George Orwell. Eles foram lançados em 1945 e 1948 respectivamente. E isso só até os anos 50, de lá pra cá o número de livro aumentou consideravelmente.
Esta lista na Wikipédia indica livros famosos como Fahrenheit 451 e Laranja Mecânica. E os exemplares mais recente são as séries Feios, JV (como disse no início do post) e o mais novo lançamento da editora Intrínseca, Delírio.
Mas há inúmeros livros do gênero. E não só livros. Tem filmes e também séries, muitos  destes são fenômenos ao redor do mundo como Star Wars e Doctor Who (eu também me espantei quando soube disso). Nesta mesma onda, 13 blogs se juntaram pra fazer a Dominação Distópica, onde ao longo de um ano, eles farão sorteios e posts sobre o assunto. Veja e participe, é bem legal.
Porém neste ponto eu gostaria de chamar atenção para um ponto. Movimentos artísticos e filosóficos geralmente caminham lado a lado e são sinônimos de crise, ou seja, são o reflexo do que as pessoas de determinada cultura ou sociedade pensa, o que desejam ou aquilo que temem, e se tornam mais forte em tempos de mudanças, de quebras. Se a arte imita a vida e vice versa, o que esta febre, entre os jovens principalmente, tem a nos dizer dessa vez sobre a nossa sociedade?
Quando a febre era de magia e sobrenatural, muitos diziam que isso era uma espécie de fuga da realidade. E agora, que os preceitos morais dessa sociedade são distorcidos e levados as últimas consequências?
É inegável o cunho político e, em certa dose, apocalíptico que esse tipo de obra traz para as rodas de discussão destes jovens. Então, de antemão, eu acredito que essa febre tenha algo mais a dizer e a acrescentar do que as outras. Mas não pela sua qualidade narrativa. Não é isso que estou dizendo! Mas do ponto de vista que trás interrogações sobre as características e a moral de tudo que nos cerca, e é preciso pensar nisso.
A literatura sempre teve a característica de ser uma arte que governos autoritários consideravam perigosa por conta dos questionamentos criados quando se tem informação. E agora tenho que dar uma opinião completamente pessoal. Sempre acreditei muito em uma frase atribuída ao poeta Mário Quintana que diz assim:
Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.”
E concluo, pessoas mudam o mundo. Então, por conta disso sempre acreditei na literatura como um poderoso mecanismo pra melhorar a vida da nossa sociedade, e quando se vê uma febre que não tem como as pessoas não pensarem no que se passa ao redor dela, como é o caso da Distopia, você se lembra desse poder.
Então, não estou dizendo que as distopias são melhores que os outros livros. Estou dizendo que se faz uma crítica mais direta a sociedade, e não digo só algo direcionado aos governantes, mas também à população que deixa isso acontecer, do que em outro gêneros.
Essa é um discussão que pode ir longe, mas vou parando por aqui.
Espero que quem ainda não tenha lido algo deste gênero se interesse, vale MUITO a pena e aqueles que leram, mas sem o olhar crítico nesta direção, o façam. Vocês terão outra dimensão de como a literatura é algo poderoso, porque como já disse... a vida imitando a arte e a arte imitando a vida.

UPDATE
Um leitor muito atento, diferente desta que vos fala, gentilmente me corrigiu nos comentário e eu venho aqui me desculpar e corrigir o que disse no texto.
Eu disse o seguinte:
"Animal Farm (No Brasil, Revolução do Bichos), e aquele que se assemelha muito a Jogos Vorazes por se tratar de um Reality Show, 1984 de George Orwell."
Mas não é isso, 1984 se assemelha a Jogos vorazes justamente por se tratar de uma distopia, não tem nada a ver com ser um reality show. E Animal Farm não é necessáriamente uma distopia.
Nas palavras do nosso amigo:
"[...] A Revolução dos Bichos não é realmente uma distopia, mas uma metáfora satírica do comunismo. E 1984 não tem bulhufas a ver com reality shows (que, por sinal, só viriam a ser criados várias décadas depois que o livro foi publicado). A confusão talvez role porque foi daí que surgiu o termo “O Grande Irmão” ou “Big Brother” na língua de Shakespeare. No romance, o Grande Irmão era uma figura simbólica do Estado (tipo o tio Sam), que representava o país da Oceania que mantinha câmeras em todos os lugares para se certificar que nenhum cidadão exercesse qualquer forma de expressão ou pensamento livre, mais como câmeras de segurança em escala nacional que um reality show."
O comentário está ai, e vocês podem conferir.
Desculpem-me pela informação errada, minha culpa. =/ E muito obrigada pela correção, adoro adoro quando o leitor participa, mesmo que seja pra corrigir ou discordar.

2 comentários:

  1. Amei seu post. Disopia é um dos meus gêneros preferidos. Amo a critica a sociedade que está intrincada nas estorias. Gostei muito de ver o assunto sendo abordado :D
    Mario Quintana é um sábio, e essa sua frase é belíssima.
    Bj!

    -Amigas Entre Livros-

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  2. Ótimo texto, mas vale lembrar que A Revolução dos Bichos não é realmente uma distopia, mas uma metáfora satírica do comunismo.
    E 1984 não tem bulhufas a ver com reality shows (que, por sinal, só viriam a ser criados várias décadas depois que o livro foi publicado). A confusão talvez role porque foi daí
    que surgiu o termo “O Grande Irmão” ou “Big Brother” na língua de Shakespeare. No romance, o Grande Irmão era uma figura simbólica do Estado (tipo o tio Sam), que representava o país da Oceania que mantinha câmeras em todos os lugares para se certificar que nenhum cidadão exercesse qualquer forma de expressão ou pensamento livre, mais como câmeras de segurança em escala nacional que um reality show. Já o programa, Big Brother é só uma piada com o livro, de modo que o telespectador, assim como o Grande Irmão, está sempre assistindo a cada passo das pessoas (porque como todos sabem, o público médio de um BBB super conhece George Orwell =P).
    Outra coisa interessante, é que o futuro pós-apocalíptico, provavelmente a forma mais popular de distopia, já data de 1826, com o livro “The Last Man” da Mary Shelley (a do Frankenstein), sendo possivelmente a primeira distopia de todos os tempos (sem contar o próprio Apocalipse, Armageddon, Ragnarok, e outros fim do mundo religiosos por aí). Ou seja, a mulher foi pioneira da ficção científica, do terror e da distopia futurística. Crazy bitch.

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