domingo, 8 de abril de 2012

[Especial] Loucura - Luiza Nunes

Como prometido trazemos hoje o texto que ganhou o concurso cultural WAMH! A ganhadora foi Luiza Nunes e o tema escolhido foi "Sobrevivendo nessa terra de loucos", que falava sobre Loucura.
Ela tem um blog chamado Expressão e Liberdade, onde você pode encontrar mais texto de sua autoria.

Loucura
Por Luiza Nunes


Se você perguntasse para um médico, ele diria que a loucura é uma doença mental. Um filósofo talvez te respondesse com outra pergunta – “e o que não é loucura?”. Um poeta diria que loucura é a beleza da vida – poetas tem disso. Um líder espiritual, muito provavelmente, usaria palavras complexas para no fim dizer “Pense você mesmo sobre isso”. Bando de malucos. Acho que foi algum escritor, talvez um cantor – não lembro bem – que disse que a loucura nada mais é que uma alta dose de lucidez. Ou algo assim. E não é exatamente isso? Loucura e sanidade caminham de mãos dadas. Quanto mais são você é, mais louco também. Porque você não pode simplesmente adentrar os caminhos tortuosos das realidades da vida e permanecer sã. E se aprofundar nas verdades do mundo - verdades cruéis, devo dizer - significa estar cada vez mais lúcido.

As pessoas têm medo de enlouquecer. Ficam sempre na zona de conforto. Não questionam, não ‘descatracalizam’, não vão ver o que é que tem do outro lado. É como o Mito da Caverna – de Platão -, a maioria das pessoas prefere ficar dentro da caverna. Não digo que estejam errados. O preço a se pagar por sair da caverna é alto demais.

Aceitar a loucura é andar sobre uma linha tênue entre a morte e a vida. É conhecer a melancolia extremamente de perto. Quando você aceita esse estado de insana lucidez você entra em conflito interno e externo; você tem cansaços de mundo tão intensos que às vezes pensa em suicídio, porque o mundo parece não valer. Você entra em estados de silêncios extremos; desses de precisar parar tudo e contemplar o nada. Você sente medo, muito medo. Entretanto, você começa a reagir, a lutar. Porque seria loucura maior deixar tudo como está.

Ser louco é ser – pra ser sincera – um pouco (bastante) triste. Não triste de choroso. Triste de melancólico. Melancólico que sofre de melancolia contemplativa – algo como contemplar os sofrimentos da vida e refletir sobre isso. (Um adendo: contemplar, neste caso, significa “prestar atenção em” e não “admirar” - que é o significado mais comum).

Convenhamos, você não pode permanecer feliz depois de verdadeiramente descobrir o mundo. Exatamente por isso não posso culpar as pessoas que permanecem na zona de conforto, elas são felizes; alienadas sim, mas felizes. E eu não posso simplesmente dizer “Ei, acorda pra vida. Vem conhecer a tristeza”. Até porque, despertar não é tão fácil assim. É preciso que algo te toque profundamente – acho mesmo que algumas pessoas nunca vão sentir isso.

Já ouviu falar em Terrorismo Poético? E em Intervenção?  Os dois são modos de despertar o outro. Algo como ações físicas, ou imagens, ou escritas, ou o que a imaginação permitir; ações que façam o outro refletir e ter aquele choque de realidade. Só que você não fica para ver o que acontece. Você simplesmente vai embora e deixa que a pessoa descubra. Você dá a ela o caminho da lucidez; e se ela tiver propensão à loucura, acontece o estalo.

O mundo é todo louco. Todo errado e torto. O mundo é injusto. E se você não for louco - o mínimo que for -, você não consegue ver isso. O dito estado de normalidade cega o ser humano. A normalidade nada mais é do que a alienação mascarada. E ser alienado significa existir e não ser; porque você tem sensações que não são suas, porque você acha que tem sentimentos que, na verdade, você nem conhece, sentimentos que são impostos. Você tem opiniões que acha que são próprias, mas que não são mais que pura manipulação.

Um mundo de loucos, creio eu, seria um mundo justo. Pelo menos mais justo que esse. Um mundo de loucos seria um mundo menos doente.

Mas, saiba, eu, se fosse você, não acreditaria em uma palavra do que eu disse aqui, eu posso estar errada sobre tudo. Porque isso e só um desvario. Porque talvez a loucura seja isso. No entanto, talvez não seja. Talvez a loucura seja apenas tudo aquilo que um louco faz. E, ao que parece, somos todos loucos aqui.

4 comentários:

  1. Olá, você saberia me dizer de onde é essa imagem que ilustra o Post? Qual o autor da imagem? Obrigada, Aline.

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